27.5.17

Naufraga

Imagem: "Puissance Océanique" (2004), Chu Teh-Chun
Na noite passada tentei uma manobra: resolvi dormir no sofá. Reneguei o conforto da minha cama e dormi no sofá de apenas dois lugares, o único que coube no meu apartamento. O que eu não imaginava é que os sonhos são audazes marinheiros. Menos por guiarem-se pelos pontos cardeais, mais por orientarem-se pelo vento. O vento é a respiração. Durante o nosso sono os devaneios acomodam-se sobre nosso buço e esperam pacientes pela inspiração correta para invadir-nos pelo nariz. Foi o que aconteceu. Ali, no sofá, ele me encontrou desarmada. Atracou por um breve momento na altura dos meus lábios e logo em seguida penetrou de uma só vez no meu interior. Depois, sem nenhum tipo de remorso, sussurrou para todo o meu corpo palavras perigosas enquanto desembaraçava delicadamente os meus cabelos. Quando me dei conta, confesso, não lutei contra. Só o que fiz foi tentar agarrá-lo com as minhas mãos ainda sonolentas. À despeito do meu esforço, porém, acordei mais uma vez à ermo. Flutuando, solitária, num conhecido mar hostil.  

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