6.4.17

O avesso da fórmula de Yeats

Imagem: "Salón de Té" (1993), fotografia de Mario Algaze

Joguei fora todas as fotografias que preenchiam o velho álbum. Aquele que resgatei no Brique da Redenção. O vinho entra pela boca, o amor pelos olhos, disse infalível Yeats num livro que comprei no mesmo lugar. Eu olhava para a foto do Gustavo e suspirava. Nisso também o poeta estava certo. Bem, pensei que seria a solução não vê-lo mais. Mas assim que o caminhão de entulhos se distanciou ladeira abaixo, lá fui eu para o youtube assistir um tutorial que ensinava ter de volta coisas extraviadas. "Oi pessoal! Hoje vou ensinar para vocês como recuperar arquivos deletados. Primeiro passo, faça o backup de si mesmo porque você pode acabar se apagando junto com o resto". Ops. Parei nesse ponto. Que perigo. Seria menos assustador se eu seguisse os passos do vídeo que demonstra como afiar as facas com os dentes caninos.
Como boa canceriana, porém, é óbvio que eu guardei uma cópia num lugar que propositalmente sabia que não iria esquecer. É, guardei. Vou ali buscar. Eu preciso vê-lo mais uma vezinha apenas. Entende? Só uma. Eu juro. Só uma.
Peguei a foto. Tô aqui olhando para ela faz tanto tempo que parece que passei o dia em Vênus. Qual o 0800 do A.A? "Alô, alcoólatras anônimos. No que posso ser útil?". Droga, errei o número. A associação dos amantes precisa trocar de sigla. Onde eu estava? A, sim, na foto. Deixa eu ver cada pedaço deste rosto. Por que me olha tão sério? O vinco entre as sobrancelhas. Caralho. Magnético como uma bússola que faz os meus ponteiros apontarem sempre para esse lado. Quem foi que disse que só há quatro pontos cardeais? Não sei. Seja quem for, essa pessoa errou feio. Mas deixa quieto, daqui a pouco o CNPQ abre uma sindicância e o pobre coitado, para devolver as bolsas, vai ter que vender as calças.
Se concentra. Vamos. Preciso me desfazer dessa foto. Tô ligada. Mas como? Não posso mais jogá-la no lixo. O caminhão só voltará na próxima semana e até lá sei que vou vasculhar as latas junto com os gatos. Poderia queimá-la. Que ótima ideia!, não fosse o fato de que eu entraria também na fogueira. Por que eu nasci no final de junho? Algumas semanas depois eu seria de leão e estaria neste momento vendo uma foto minha. 
Voltei para a internet. Digitei: "tutorial de como se desfazer de uma foto DEFINITIVAMENTE". O google me corrigiu: "você quis dizer: tutorial de como parar de ser TOLA?". Nossa, que mal educado. E se eu rasgasse a foto em pedacinhos? Não, passaria o dia montando quebra-cabeça e de quebrado já basta o meu coração. Credo. Essa foi péssima, me perdoe. Ok. Vamos lá.  A foto. A foto. Como me desfazer da foto. Vou para a casa da Bianca.

- Oi, Bi. Preciso da tua ajuda.
- Fala guria... 
- Tô aqui com a foto no bolso...
- Verônica, larga mão de ser tola.
- Você é um robozinho do google? 
- Hã? Como? 
- Nada não, esquece.
- Me dá aqui essa foto!

          Não é que a louca arrancou a fotografia das minhas mãos e comeu até não sobrar nenhum pedaço?! Isso que é amiga. Abraços. Festejos. Brinde com o vinho de fazer sagu porque o bom tinha acabado na festinha da noite anterior.

- Bianca...
- Que?
- Obrigada.
- Somos um time, né?!
- Bianca...
- Oi.
- Eu não vejo mais, então porque continuo amando?
- Eu comi uma fotografia por nada? Verônica! Vou passar mal do estômago!
- Me desculpa!  Qualquer coisa eu te faço um chá de boldo.
(Silêncio)
- O que eu faço agora, Bi? Será que algum outro poeta escreveu o avesso da fórmula de Yeats? O amor sai por onde?

Vamos lá: poetas, blogueiras, youtubers, bruxas, arquitetas? Quem sabe os universitários do "show do milhão"? Máôe. O programa acabou faz anos. 

- Bianca, me socorre!
- Pensa bem. Se você ama tanto, talvez devesse conversar com o Gustavo.
- Não posso.
- Por que?
- Você sabe. Só tenho duas opções. Ou eu esqueço ou me mudo de país.
- Mas o Uruguai não fica assim longe de Porto Alegre. Sempre rola umas promoções, posso ir te visitar. E tem o doce de leite....
- Eu tenho pensado nisso, confesso. Preciso fazer, né? Esquecer não rolou. Não teve remédio, benzedeira, tempo que deu jeito. Preciso fazer. Eu amo. Sim. Amo. Meu Deus, Bianca, eu amo tanto!

            Mais abraços. Mais comemorações.

- Vou mandar um email. Posso usar o seu computador?

Oi, Gustavo. Tudo bem por ai? Pode parecer intempestivo da minha parte, fora de hora. Mas eu vou para Montevidéu daqui um tempo e gostaria muito de conversar com você. Quer tomar um café, ou algo assim? Beijos. Verônica.

           Se você acha que eu demorei três minutos para escrever, saiba que foi mais de uma hora ponderando sobre cada palavra. E mais outra encarando a mensagem.

- Aperta o enter, mulher.
- Se eu apertar não tem mais volta. Vai mudar tudo.
- Aperta, anda... É isso o que você quer. Toma aqui outra taça para ajudar criar coragem.
- Foi. Enviei. E agora? Ai meu deus. Bianca....
- Agora espera a resposta.
- Nada ainda.
- Calma, daqui a pouco ele olha.

          Eu esperei. Esperei tanto que não posso mais continuar escrevendo essa história me atendo a todos os detalhes e percursos pois ela viraria um tijolo como os do Tolstói.  
           Nem sim. Nem não. Nada. Atualizei tantas vezes o email que o F5 pediu demissão. Fui para Montevidéu nesse meio tempo. Não me envergonho em dizer que procurei o Gustavo em cada esquina que dobrei. Mas não me orgulha nada, na verdade fere o meu brio, o fato de ter me atolado tanto no lamaçal da memória como uma velha na espera de que o meu convite fosse, mesmo tardiamente, aceito. No Uruguai revi bons amigos. Encontrei a primeira edição de um livro da Alejandra Pizarnik num sebo. Comi chivito e alfajor. Trouxe um vinho bom para a Bianca. Nenhuma resposta. Só e-mails de trabalho e ofertas do decolarpontocom. Vou chamar a Bi para viajar para Buenos Aires comigo. Trezentos reais ida e volta, o preço está ótimo.
Tá, mas e o amor? Você deve estar se perguntando. Ou talvez nem esteja. Tudo bem, vou falar mesmo assim. Acabei por descobrir que se o amor entra pelos olhos (fiz as pazes com Yeats), é pela orelha que ele se esvai. Depois de um tempo, sem ouvir a resposta tocar na campainha dos meus tímpanos, senti o amor se acanhando, se calando, emudecendo, quietinho. Pois é. Já dentro, o amor suporta a cegueira. Que coisa incrível! Mas a surdez?! E com isso não quero dizer que ele acabe, suma, desapareça. Impossível. Um vinil nunca esquece de seus riscos. Mas aos poucos outras vozes começam a falar mais alto. Bem, pelo menos agora posso tomar sopa quente sem deixar que ela esfrie enquanto procuro a letra G dentro do prato fundo. Me desculpe o Drummond, por ora vou deixar para sonhar apenas quando estiver dormindo. Á, tem mais uma coisa que preciso contar. Me inscrevi num canal no youtube que ensina a jogar Go. Muito mais instrutivo e menos perigoso que os tutoriais anteriores. Sempre quis aprender. Já jogou? Talvez nos encontremos numa dessas plataformas de jogos onlines. Anota ai meu nickname: goveronica_2017

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