28.5.17

Blim-blom

Imagem: "Adieu" (1982), Georg Baselitz

Saudade é ouvir a campainha ressoar insistente
Dentro de uma casa que não existe mais


27.5.17

Naufraga

Imagem: "Puissance Océanique" (2004), Chu Teh-Chun
Na noite passada tentei uma manobra: resolvi dormir no sofá. Reneguei o conforto da minha cama e dormi no sofá de apenas dois lugares, o único que coube no meu apartamento. O que eu não imaginava é que os sonhos são audazes marinheiros. Menos por guiarem-se pelos pontos cardeais, mais por orientarem-se pelo vento. O vento é a respiração. Durante o nosso sono os devaneios acomodam-se sobre nosso buço e esperam pacientes pela inspiração correta para invadir-nos pelo nariz. Foi o que aconteceu. Ali, no sofá, ele me encontrou desarmada. Atracou por um breve momento na altura dos meus lábios e logo em seguida penetrou de uma só vez no meu interior. Depois, sem nenhum tipo de remorso, sussurrou para todo o meu corpo palavras perigosas enquanto desembaraçava delicadamente os meus cabelos. Quando me dei conta, confesso, não lutei contra. Só o que fiz foi tentar agarrá-lo com as minhas mãos ainda sonolentas. À despeito do meu esforço, porém, acordei mais uma vez à ermo. Flutuando, solitária, num conhecido mar hostil.  

8.5.17

Rasuras

Imagem; "Automat" (1927), Edward Hopper
Quantos poemas inacabados
Condenados à solidão das gavetas
Serão necessários
Até que eu consiga dar a justa forma
À voz que canta no meu silêncio? 

Perpétua

Fotografia de Ailton Martins
Para as Mães de Maio

Depois de guardar no freezer os potinhos com feijão
A mulher enfiou na panela ainda suja
A dor que entalava na garganta.
Trinta minutos na pressão 
E mesmo assim impossível de engolir. 

30.4.17

Nascedouro

Fotografia minha
Acordei cedo, antes mesmo do despertador tocar. Peguei o celular e a tela me disse que ainda eram seis e vinte e que fazia quatro graus. Levantei da cama, procurei em vão os chinelos e saí caminhando apenas com as meias nos pés. O piso estava congelado e escorregadio como a fina película envidraçada que cobre os lagos nas regiões mais próximas aos polos. Já na cozinha pus a água do café para esquentar. Enquanto esperava pelo chiado, voltei até o quarto e abri as cortinas. Assim que olhei para o lado de fora, porém, fiquei tão espantada com o que via que por um bom tempo os apitos que começaram a ressoar da cozinha me ficaram alheios. Percebi, pela primeira vez desde que me mudei de casa, que é ali a poucos metros de onde eu moro agora, entre as nascentes e as árvores, que as nuvens partem em revoada todas as manhãs.  

29.4.17

Uivos

Imagem: Ilustração de Peony Yip
Quando a noite chega
Despetalo todas as palavras floridas
Não mais brinco com a coreografia das aves
Tampouco escuto os murmúrios das janelas
Quando a noite chega
Minha poesia vira loba, raposa, cadela
Selváticas, cavamos juntas na terra
Em busca de resquícios do nome
Que sacia a nossa fome ancestral

Enquadre

Fotografia minha
A janela que sonha ser árvore
Espera todas as tardes
Que os raios luminosos do sol
Desenhem no seu vitral
Um sem fim de flores amarelas

27.4.17

Bravia

Fotografia minha
Ainda que aberta
A janela é a cela
Da cortina que se quer indomável  

25.4.17

Flerte

Fotografia minha
Dentro da casa a noite se estende
Mesmo com o dia já posto
No meridiano de um cômodo
A janela revela
As carícias entre a luz e a sombra 

20.4.17

Vindima


Fotografia minha


Para Hilda Hilst 

A poesia que não é a minha
Pende farta
Nos galhos sanguíneos da página
Esfomeada
Colho as palavras com a boca
Sem usar as mãos

6.4.17

O avesso da fórmula de Yeats

Imagem: "Salón de Té" (1993), fotografia de Mario Algaze

Joguei fora todas as fotografias que preenchiam o velho álbum. Aquele que resgatei no Brique da Redenção. O vinho entra pela boca, o amor pelos olhos, disse infalível Yeats num livro que comprei no mesmo lugar. Eu olhava para a foto do Gustavo e suspirava. Nisso também o poeta estava certo. Bem, pensei que seria a solução não vê-lo mais. Mas assim que o caminhão de entulhos se distanciou ladeira abaixo, lá fui eu para o youtube assistir um tutorial que ensinava ter de volta coisas extraviadas. "Oi pessoal! Hoje vou ensinar para vocês como recuperar arquivos deletados. Primeiro passo, faça o backup de si mesmo porque você pode acabar se apagando junto com o resto". Ops. Parei nesse ponto. Que perigo. Seria menos assustador se eu seguisse os passos do vídeo que demonstra como afiar as facas com os dentes caninos.
Como boa canceriana, porém, é óbvio que eu guardei uma cópia num lugar que propositalmente sabia que não iria esquecer. É, guardei. Vou ali buscar. Eu preciso vê-lo mais uma vezinha apenas. Entende? Só uma. Eu juro. Só uma.
Peguei a foto. Tô aqui olhando para ela faz tanto tempo que parece que passei o dia em Vênus. Qual o 0800 do A.A? "Alô, alcoólatras anônimos. No que posso ser útil?". Droga, errei o número. A associação dos amantes precisa trocar de sigla. Onde eu estava? A, sim, na foto. Deixa eu ver cada pedaço deste rosto. Por que me olha tão sério? O vinco entre as sobrancelhas. Caralho. Magnético como uma bússola que faz os meus ponteiros apontarem sempre para esse lado. Quem foi que disse que só há quatro pontos cardeais? Não sei. Seja quem for, essa pessoa errou feio. Mas deixa quieto, daqui a pouco o CNPQ abre uma sindicância e o pobre coitado, para devolver as bolsas, vai ter que vender as calças.
Se concentra. Vamos. Preciso me desfazer dessa foto. Tô ligada. Mas como? Não posso mais jogá-la no lixo. O caminhão só voltará na próxima semana e até lá sei que vou vasculhar as latas junto com os gatos. Poderia queimá-la. Que ótima ideia!, não fosse o fato de que eu entraria também na fogueira. Por que eu nasci no final de junho? Algumas semanas depois eu seria de leão e estaria neste momento vendo uma foto minha. 
Voltei para a internet. Digitei: "tutorial de como se desfazer de uma foto DEFINITIVAMENTE". O google me corrigiu: "você quis dizer: tutorial de como parar de ser TOLA?". Nossa, que mal educado. E se eu rasgasse a foto em pedacinhos? Não, passaria o dia montando quebra-cabeça e de quebrado já basta o meu coração. Credo. Essa foi péssima, me perdoe. Ok. Vamos lá.  A foto. A foto. Como me desfazer da foto. Vou para a casa da Bianca.

- Oi, Bi. Preciso da tua ajuda.
- Fala guria... 
- Tô aqui com a foto no bolso...
- Verônica, larga mão de ser tola.
- Você é um robozinho do google? 
- Hã? Como? 
- Nada não, esquece.
- Me dá aqui essa foto!

          Não é que a louca arrancou a fotografia das minhas mãos e comeu até não sobrar nenhum pedaço?! Isso que é amiga. Abraços. Festejos. Brinde com o vinho de fazer sagu porque o bom tinha acabado na festinha da noite anterior.

- Bianca...
- Que?
- Obrigada.
- Somos um time, né?!
- Bianca...
- Oi.
- Eu não vejo mais, então porque continuo amando?
- Eu comi uma fotografia por nada? Verônica! Vou passar mal do estômago!
- Me desculpa!  Qualquer coisa eu te faço um chá de boldo.
(Silêncio)
- O que eu faço agora, Bi? Será que algum outro poeta escreveu o avesso da fórmula de Yeats? O amor sai por onde?

Vamos lá: poetas, blogueiras, youtubers, bruxas, arquitetas? Quem sabe os universitários do "show do milhão"? Máôe. O programa acabou faz anos. 

- Bianca, me socorre!
- Pensa bem. Se você ama tanto, talvez devesse conversar com o Gustavo.
- Não posso.
- Por que?
- Você sabe. Só tenho duas opções. Ou eu esqueço ou me mudo de país.
- Mas o Uruguai não fica assim longe de Porto Alegre. Sempre rola umas promoções, posso ir te visitar. E tem o doce de leite....
- Eu tenho pensado nisso, confesso. Preciso fazer, né? Esquecer não rolou. Não teve remédio, benzedeira, tempo que deu jeito. Preciso fazer. Eu amo. Sim. Amo. Meu Deus, Bianca, eu amo tanto!

            Mais abraços. Mais comemorações.

- Vou mandar um email. Posso usar o seu computador?

Oi, Gustavo. Tudo bem por ai? Pode parecer intempestivo da minha parte, fora de hora. Mas eu vou para Montevidéu daqui um tempo e gostaria muito de conversar com você. Quer tomar um café, ou algo assim? Beijos. Verônica.

           Se você acha que eu demorei três minutos para escrever, saiba que foi mais de uma hora ponderando sobre cada palavra. E mais outra encarando a mensagem.

- Aperta o enter, mulher.
- Se eu apertar não tem mais volta. Vai mudar tudo.
- Aperta, anda... É isso o que você quer. Toma aqui outra taça para ajudar criar coragem.
- Foi. Enviei. E agora? Ai meu deus. Bianca....
- Agora espera a resposta.
- Nada ainda.
- Calma, daqui a pouco ele olha.

          Eu esperei. Esperei tanto que não posso mais continuar escrevendo essa história me atendo a todos os detalhes e percursos pois ela viraria um tijolo como os do Tolstói.  
           Nem sim. Nem não. Nada. Atualizei tantas vezes o email que o F5 pediu demissão. Fui para Montevidéu nesse meio tempo. Não me envergonho em dizer que procurei o Gustavo em cada esquina que dobrei. Mas não me orgulha nada, na verdade fere o meu brio, o fato de ter me atolado tanto no lamaçal da memória como uma velha na espera de que o meu convite fosse, mesmo tardiamente, aceito. No Uruguai revi bons amigos. Encontrei a primeira edição de um livro da Alejandra Pizarnik num sebo. Comi chivito e alfajor. Trouxe um vinho bom para a Bianca. Nenhuma resposta. Só e-mails de trabalho e ofertas do decolarpontocom. Vou chamar a Bi para viajar para Buenos Aires comigo. Trezentos reais ida e volta, o preço está ótimo.
Tá, mas e o amor? Você deve estar se perguntando. Ou talvez nem esteja. Tudo bem, vou falar mesmo assim. Acabei por descobrir que se o amor entra pelos olhos (fiz as pazes com Yeats), é pela orelha que ele se esvai. Depois de um tempo, sem ouvir a resposta tocar na campainha dos meus tímpanos, senti o amor se acanhando, se calando, emudecendo, quietinho. Pois é. Já dentro, o amor suporta a cegueira. Que coisa incrível! Mas a surdez?! E com isso não quero dizer que ele acabe, suma, desapareça. Impossível. Um vinil nunca esquece de seus riscos. Mas aos poucos outras vozes começam a falar mais alto. Bem, pelo menos agora posso tomar sopa quente sem deixar que ela esfrie enquanto procuro a letra G dentro do prato fundo. Me desculpe o Drummond, por ora vou deixar para sonhar apenas quando estiver dormindo. Á, tem mais uma coisa que preciso contar. Me inscrevi num canal no youtube que ensina a jogar Go. Muito mais instrutivo e menos perigoso que os tutoriais anteriores. Sempre quis aprender. Já jogou? Talvez nos encontremos numa dessas plataformas de jogos onlines. Anota ai meu nickname: goveronica_2017

3.4.17

Desgarrada

Imagem: "Girl In The Woods" (1882), Vincent van Gogh

Há dias o Minotauro estalava
Com o seu corpo ruidoso 
As folhas caídas
Sobre o solo ruinoso de outono 

Em pé, imóvel entre as ramas de uma ausência 
Com musgos e líquens irrompendo no meu peito 
Ouvi, apenas a dois palmos de distância
A voz zelosa, mas sirte, da besta:

- É imprescindível que tu saia deste bosque

2.4.17

Snow globe

Imagem: Mary Kuzmenkova

Depois de tanto vagar 
Na estrada muda de pegadas
Decidi que gritaria até o globo de vidro quebrar 
Em mil pedacinhos de caco e de neve 
Gritei. Gritei tão ávida que dos meus braços 
Nasceram um belo par de asas. Azuis.
Me atirei então para o alto
Imitando a acrobacia das gralhas
E caí, de novo alva, como um pássaro
Como uma pássara 
Que se arrebentou na imensidão do céu 
De uma janela fechada

Agora só me restam as penas

30.3.17

As mãos aladas

Imagem: "Couple Dancing" (1885), Vincent van Gogh

Na banca da praça central
Vi o jornal
Com a foto de dois dançarinos estampada
Que espantada fiquei
Ao perceber
Que bastaria um impulso apenas 
Para o homem fazer o outro corpo voar
Como um foguete
Até a atmosfera de Ganímedes 

Urdidura

Imagem: "Girl Knitting" (1898), Nikolaos Gyzis


Todos os dias eu tricoto
Com os fios de Ariadne
Um pedaço da coberta

No labirinto da memória
Quaisquer que sejam as voltas
Termino, sempre
Numa noite branca de inverno

16.3.17

Não-corpo

Imagem: Fotografia de Francesca Woodman

Quase sempre me assusto com a destreza de meu rosto 
Mentir tão convicto. Que às vezes nem eu duvido 
Do sorriso fácil que torce os meus lábios
E do olhar plácido de manhã de domingo

Tenho forma de mulher que vive e que faz

Mas o mundo está cheio de espelhos
Como o azul do céu sem nuvens de outono
Que me despe com os seus sussurros de vidro
E expõe a minha nudez essencial

No revés de minha face manifesta
Habita a matéria taciturna de um não corpo

Sou arqueóloga de meus próprios ossos

11.3.17

A sinfonia inacabada


Imagem: "The Wave Or My Destiny" (1857), Victor Hugo

   Num cômodo à meia luz Dante respirava calmo. Fazia da boca e das narinas instrumento para produzir a música necessária para despertar as palavras que dormiam dentro do cesto. Uma por uma elas acordaram, devagarinho, e contaram para ele sobre o sonho que tiveram durante o sono, no qual aprenderam a falar na língua das orquestras. O homem as escutou atento e então, como um maestro, compôs verso após verso a mais linda peça desde os nonos noturnos de Chopin. A notícia daquele feito se espalhou rapidamente. Entusiastas, apreciadores e curiosos se amontoaram em frente à casa de Dante na esperança de receber uma cópia. Assim que leram, porém, fizeram do homem motivo de chacota. Aqueles escritos não faziam menor sentido. Um pedaço do público, revoltado, jogou a folha na lata de lixo. Outros, ecologicamente corretos, fizeram dela rascunho para a lista de supermercado. Apenas uma das cópias sobreviveu ao linchamento e foi parar dentro de uma obra emprestada da biblioteca pública.
   Alguns dias após ao grande lançamento frustrado, Helena se deparou com o livro num de seus passeios sem destino certo pelos corredores da biblioteca. Assim que o folheou, para ver do que se tratava aquela obra cuja capa lhe chamara a atenção, encontrou o texto de Dante soterrado entre as centenas de páginas amareladas pelo uso.  A princípio, a mulher pensou que aquelas letras falavam numa língua que ela não conhecia. Que tipo de texto, poesia, bruxaria era aquela? Intuitiva, ou talvez apenas boa de palpite, logo ela soube que o que tinha que fazer para lê-lo era deixar o seu corpo ser levado pelos escritos. Depois de aceito o convite, as palavras pegaram Helena pelas mãos e fizeram com que rodopiassem até os seus ossos. Ainda tonta, ela leu de novo. E mais uma vez. E outra. E não entendia como, se já conhecia a estória de cabo a rabo, podia a última leitura ser tão extasiante quanto a primeira. O texto era uma sinfonia. Começava com um movimento lento e solene até chegar à tensão arrematadora de um ato final que não se deixava ruir. Cada uma daquelas sentenças tinha sobre Helena o poder de uma colisão entre duas placas tectônicas. Mas ela não queria escapar, nem correr, continuava lendo na espera de que fosse engolida pela grande onda. 
   Assim que terminou a última de suas leituras, atordoada, Helena teve que fazer um esforço sobre-humano para resistir ao ímpeto de levar aquela cópia junto consigo. Respirou fundo, titubeou não uma vez apenas, mas devolveu a folha para as entranhas do livro. De todo modo, quando já estava a algumas prateleiras de distância, voltou correndo até onde tinha deixado o livro que então já não era outra coisa senão uma caixinha de música. Helena colocou a cópia no colo, retirou o lápis que lhe servia para prender em forma de coque os seus longos cabelos acobreados e escreveu na margem esquerda da página um recado para a próxima pessoa que encontrasse a obra de Dante: "Por favor, leia com os olhos fechados! Como quem beija. Como quem dança. Como quem sonha". 

9.3.17

Prelúdio de um batismo

Imagem: "Seascape Study With Rain Cloud" (1827), John Constable

    Já fazia sete meses que Carmen estava sentada na mesma cadeira de assento de palha na esperança de que o tempo cumprisse com a sua promessa. Só o tempo cura o que não tem medicina, a mulher leu certa vez no para-choque de um caminhão na estrada. Mas logo seria outono e nada do tempo soprar na sua ferida, um pouco que fosse. Os vizinhos depois da primeira semana criaram uma mesa de apostas. Treze perderam dinheiro no final do primeiro mês, outros quinze no segundo. Só restava então o jogo da mulher da casa número cinquenta e cinco. Talvez Eloá, e esse é o nome dela, fosse a única que ainda distinguia Carmen do resto da paisagem. Os outros já haviam se adaptado tanto àquela presença estática na cadeira fincada na margem do asfalto que não mais diferenciavam a mulher de uma árvore. 
   Na tarde de ontem o olhar de Carmen e de Eloá se encontraram. A velha se escondeu rapidinho atrás da cortina de renda, afinal de contas o prêmio estava acumulado e a conta de energia não fora paga por dois meses seguidos. Eloá viu um pedaço da novela. Não funcionou. Era reprise e ela já sabia o que aconteceria. Pensou em lavar as roupas que esperavam dentro do tanque. Mas elas eram tão poucas depois que o falecido se foi, que o desvio não lhe ajudou em nada. Não saia de sua mente o olhar de súplica da menina. Parecia um cãozinho. Eloá soltou um longo suspiro, desses que desincham os pulmões até ficarem do tamanho de uma folha de papel, ligou para o neto pedindo que comprasse velas no armazém do seu Reinaldo, calçou os tamancos e foi para o lado de fora. 
    Ao ver que Eloá se aproximava, Carmen segurou forte na cadeira. Imaginou que aquele era o dia apostado pela vizinha e que tudo o que ela faria seria tentar convencê-la a ajudá-la ganhar uns trocados. O rapaz da casa quarenta e sete, três meses antes, chegou a lhe oferecer vinte por cento. Entretanto, quando Eloá se plantou na sua frente como um jequitibá de cem anos, Carmen não mais desconfiou da senhora. Sem arredar a bunda do assento, Carmen contou para Eloá os motivos de sua estada. A mulher a ouviu afetuosa, apesar de saber, desde o primeiro dia, do que se tratava aquele intento. 
    - O tempo não faz nada de graça, criança. O tempo só cura se a chuva lava. 
  De fato, Carmen não poupava esforços para se proteger da água. Usava capa, sombrinha, luvas e botas de borracha mesmo se o céu desabasse durante o calor de uma manhã de janeiro. A mulher precisava resguardar a memória do toque que ainda fazia a pele arrepiar em carne viva. Era tudo o que lhe restava. Mas Carmen entendeu o que Eloá lhe disse. Mal a senhora virou as costas, desatou em Carmen um choro sentido. As lagrimas vertiam de seus olhos sem nenhum esforço e ninguém ali presenciava o que talvez seja um dos mais sinceros atos, que é o choro que escorre quando se está sozinho.
   Porém, bastou um estrondo no céu para que a mulher se recompusesse de pressa. A ferocidade do vento preludiava o embate que viria a seguir. As nuvens se avolumavam velozes como uma alcateia de leões famintos ao sentir as vibrações de um elefante manco. Uma tempestade chegou sem aviso. Carmen sabia o que tinha que fazer. Compreendia que a sua decisão não teria volta. Mas estava certa. Decidida. Logo que os primeiros pingos da chuva de verão, densos feito patadas, começaram a esbofetear o solo, Carmen ergueu-se da cadeira. Com as pernas tremendo, atrofiadas pelos meses sem uso, a mulher abriu os braços, levantou a cabeça para o alto e açulou por uma fração os fiéis soldados do tempo. A chuva engrossou. Carmen correu. Debaixo do coreto da praça que se estende maior do que qualquer sombrinha, a mulher viu a cadeira ser minuciosamente lavada. Naquele momento, meio aos ribombos dos trovões que duetavam com o vento uma canção aterradora, Carmen batizou a sua dor. Deu a ela um nome próprio.

3.3.17

Plano-sequência

Imagem: Saul Leiter

escreve algumas letras, esbraveja. não é suficiente, apaga. se levanta, dá alguns passos até a cozinha, bebe um copo de água. volta para o canto da sala, senta. no seu lado direito está o começo da porta da sacada. se ergue. abre. uma rufada balança forte a cortina que se enleia nas suas pernas. ela veste um vestido floreado, dois palmos acima do joelho, de mangas frouxas porque está calor. vai chover, pensa. o tecido de tule roça na sua pele, um arrepio sobe por seus joelhos e perde força antes de chegar ao quadril. o vento que precede o temporal é denso e abafado como aquele que sai pelas narinas de um dragão. ela se livra dos enlaces da cortina, vai outra vez até a cozinha, abre a geladeira. o contato com o ar gelado que sai das entranhas do animal a torna consciente de seu ardor. não é a cidade. é a mulher que está tórrida. pega uma cerveja, a película de gelo derrete na sua mão. tenta secá-la no rosto, o rímel borra, os olhos ressaqueiam, outro arrepio. ele desce agora pela testa até morrer na curva das costas. volta para a bancada, senta outra vez. logo se iça, leva consigo a cerveja, dá um gole no meio do caminho, chega ao interruptor. desliga. escuro. volta para a cadeira, senta. escreve duas frases, apaga. o computador trava. urra. reinicia. vai até o rádio e coloca um cd do cartola. não quer. procura outro na caixa. encontra. toca delicadamente a superfície metálica do objeto num ritual mágico de vudu. “wee-dot”. aumenta o volume, pega um cigarro na bolsa, caminha até a sacada. o vento descobre a sua presença e intensifica as pancadas. não se intimida. uma sacola de plástico dança um solo violento no ar. árvores chicoteiam, portas batem, a garrafa de vodka bebida pelo vizinho na noite anterior se estilhaça contra a parede no apartamento ao lado. são novas notas que se juntam àquelas da música que ecoa ao seu redor. tenta acender o cigarro, o vento não deixa, insiste, faz uma concha com as mãos, vence. dá uma longa tragada. “if i had you”. se distrai. o vento aproveita e arranca o cigarro dos seus dedos. um rastro de brasa se forma pelo chão. ela junta o cigarro, volta a fumar, devagar que é para zombar das vãs tentativas do vento que quer ser tufão. joga a bituca na churrasqueira, senta novamente em frente ao computador. não pisca, a tela não pisca, ficam alguns segundos nesse jogo infernal. começa a digitar vencedora, mas cansada, e chora, porquê?, não sei, ou sei muito bem. tec tec tec, não é suficiente, apaga outra vez. a página começa a ensaiar uma virada, e ela não sabe em qual gaveta deixou o dicionário que traduz a matéria onírica dos sonhos para o português. abandona a estória, volta a digitar, ela só quer tocar. ela só quer te tocar. então escreve. apenas escreve. palavras chaves. o nome mesmo dos nomes. sem metáfora.  mas ainda não é suficie. começa a apagar. escreve de novo. nte. deixa como está. desiste. se levanta, caminha, deita no sofá. lá fora o vento se cala. o céu torrente desaba. e ela, exausta, fica ali até finalmente adormec

2.3.17

Vaga-lumes

Imagem: Joné Reed


"Ana!", a cômoda me chamava. Eu a ouvia. É claro que ouvia. Continuei, entretanto, concentrada nos restos do almoço que escorriam pelo ralo enquanto eu lavava as facas. Tinta a óleo que formava na superfície metálica da pia uma pintura alaranjada, ensebada e feia. Não adiantou o meu desvio, quando me dei conta eu estava prostrada frente à cômoda com as mãos ainda molhadas. Ali, em pé, alisei a pele do móvel que mascara a ossatura esfarelenta de quem aguentaria dar dois passos para o lado, e nunca uma mudança de cômodo. Ela recebeu o meu carinho estática como um cão que nem sequer respira ao ganhar um afago na barriga. Mas não era a cômoda o que eu queria, e sim o que para mim ela tem guardado. Na terceira gaveta, entre as meias e as cartas, lá estava o objeto de meu desejo: um velho vidro de conserva. Desses que preservam as azeitonas da fome ávida do tempo. Deslizei devagarinho a gaveta e retirei o pote com o cuidado de quem segura um bebe. Ao me ver, as criaturas flutuaram dentro do vidro e acenderam feito vaga-lumes em noite de escuridão vasta. Meus pequenos fragmentos de instantes. É disso que eu falo. Não os eventos que brilham como outdoors nas paredes da memória. Me refiro à outra coisa, aos detalhes relegados, aqueles que o passar dos meses insiste em tirar da tomada. O sopro do jazz no carro estacionado. A arquitetura de dois corpos mergulhados na madrugada. A fome do grito da Hilda Hilst. O sorriso não esperado. A explosão do gás da água na língua seca de ressaca. Os uivos do vento na manhã cinza. O espreguiçar do menino. O som do coração estupefato às quatro da tarde. Pedaços de palavras. O abraço da dançaO hálito do Lobo. O vermelho da capa do livro. Fiquei ali por mais alguns segundos escutando o balbucio que burlava a especes do vidro e logo em seguida devolvi para a gaveta a minha relíquia mais preciosa, quiçá, que a poção que Zeus deu para Cronos. Voltei a lavar a louça que me esperava afogada na cozinha. E durante o resto daquele dia, que são todos, até me ver novamente em frente à cômoda, vez ou outra eu levei as minhas mãos na altura das narinas e senti, comovida, o resquício de odor de salmoura que impregna os recônditos das minhas lembranças.  

1.3.17

Carnaval

Imagem: "Carnaval en un pueblo", José Luis Gutiérrez Solana

Vi o Diabo comer um churros na escadaria da igreja
Tinha a barbicha toda suja de açúcar e canela
"Fica com Deus", disse para ele o homem saído da capela
Antes de entrar no banheiro químico
E surgir vestido de Tarzan

26.2.17

Miragem

Procurei, no corpo da multidão
O Rosto
Até quase ficar cega 
Vasculhei, contando com a sorte
Cada canto, beco
Rua da cidade coberta
E finalmente o encontrei. Sim, encontrei! 
Me aproximei, com passos de raposa
Levando meu coração numa sacola
Até ver o rosto, bem na minha frente
Deixar de ser o seu

21.12.16

Incandescente

Imagem: Mary Pavlova


Me perguntam sobre o que tanto me assusta
Talvez sejam as labaredas de um quarto em chamas 
Ou talvez o reflexo dos meus olhos no espelho
Nos quais vejo - entre os montes e os vales castanhos
A partícula incandescente
Que a água salobra não soube apagar

19.12.16

Semáforo

No carro parado
Mudei a estação do rádio
As notas eté então caladas
Irromperam de súbito
O vermelho ficou verde, não vi
Até a buzina insistente me acender
Enquanto a música acordava
O que em mim adormecia

28.11.16

âmbar


Cavoco fundo na pele
quero encontrar o caderno
- soterrado por camadas petrificadas de seiva 
onde uma letra infantil ensina
a gramática da língua ancestral
que preciso com urgência lembrar
para dizer outra vez
meu nome

mais-valia


A marcha fúnebre dos carros 
Passa cabisbaixa depois do apito da fábrica
O dia morreu 
Sem deixar herança 


24.11.16

encontro


Imagem: "Lesendes Mädchen" (1850), Franz Eybl 

Coloco as tuas palavras
Na minha boca
Tempero a tua prosa
Com a minha saliva
Falo em voz alta
Cada um dos nomes
E espero pelo breve instante
(No encontro deste acorde)
Em que o portal se abre

Tremula 
Tento tocar as tuas mãos